Formação de Preços em 2027: o verdadeiro desafio da transição da Reforma Tributária

A Reforma Tributária, inaugurada pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e regulamentada pela Lei Complementar 214/2025, foi apresentada sob três grandes promessas: neutralidade, transparência e simplificação. No entanto, antes que esses benefícios sejam plenamente percebidos, as empresas enfrentarão um período inevitável de maior complexidade operacional: o regime de transição.

Entre 2027 e 2032, o Brasil conviverá simultaneamente com dois modelos tributários o sistema que está sendo extinto e o novo paradigma baseado no IBS e na CBS. Esse cenário criará um impacto direto sobre a forma como as empresas formarão seus preços, exigindo atenção redobrada de empresários, contadores e equipes financeiras.

Por que a formação de preços ficará mais complexa?

O ponto central do desafio está na convivência entre duas lógicas de incidência tributária distintas:

  • IBS e CBS, calculados por fora do preço;

  • ICMS, que permanece no modelo por dentro, onde o próprio imposto integra sua base de cálculo.

Mas a complexidade não se resume à coexistência de modelos. O problema mais sensível é a sobreposição das bases de cálculo.

Consultas fiscais recentes (PE, DF e SP) já sinalizam que o IBS e a CBS, mesmo sendo tributos “por fora”, deverão compor a base de cálculo “por dentro” do ICMS, criando uma dinâmica de cálculo não linear.
Há um Projeto de Lei Complementar (PLP 16/2025) tentando corrigir essa distorção, mas sem previsão concreta de aprovação.

Em outras palavras:
o imposto federal entra na base do imposto estadual, e isso altera profundamente a lógica de precificação tradicional.

Como ficará, na prática, a formação de preços em 2027?

Para entender os impactos, considere um exemplo com premissas projetadas para 2027:

  • Receita líquida desejada: R$ 1.000

  • CBS: 8,9%

  • IBS: 0,1%

  • ICMS: 20% (cálculo por dentro)

1. Apuração de IBS e CBS (incidência por fora)

Esses tributos incidem diretamente sobre a receita líquida.

  • Base: R$ 1.000

  • Total IBS + CBS (9%): R$ 90

2. Formação da base provisória

Inclui a receita líquida e os tributos federais:

  • Subtotal: R$ 1.090

3. Cálculo do ICMS (gross up)

Como o ICMS incide sobre o preço total — que já contém os outros tributos — utiliza-se o fator inverso:

  • Preço final = subtotal ÷ (1 – alíquota ICMS)

  • Preço final = 1.090 ÷ 0.80

  • Preço final = R$ 1.362,50

Decomposição do preço final

  • ICMS (20%): R$ 272,50

  • IBS + CBS (9%): R$ 90,00

  • Receita líquida: R$ 1.000

O preço final necessário para que a empresa receba os R$ 1.000 líquidos será R$ 1.362,50.

Esse simples exercício demonstra que, durante o regime de transição, a precificação não será uma mera soma de alíquotas, mas sim uma interação complexa de bases tributárias distintas, com impactos diretos sobre:

✔ margem de lucro
✔ fluxo de caixa
✔ gestão de preços ao consumidor
✔ estruturação do ERP
✔ compliance fiscal

O que esse cenário representa para as empresas?

A chamada “simplificação tributária” só será percebida plenamente no final do período de transição.
Até lá, as empresas enfrentarão:

  • aumento temporário da complexidade operacional;

  • maior risco de erro de cálculo;

  • necessidade de revisão dos métodos de precificação;

  • adaptação dos sistemas ERP;

  • capacitação das equipes;

  • acompanhamento constante das bases normativas estaduais.

Para setores de margem estreita como farmácias, salões de beleza, clínicas de saúde, academias e estética essa atenção será ainda mais decisiva para evitar perda de rentabilidade.

Conclusão: 2027 marca o início da fase mais sensível da Reforma Tributária

A transição não impactará apenas a tributação, mas toda a gestão financeira das empresas, especialmente no que diz respeito à formação de preços.

A lógica tributária que conhecemos deixará de funcionar.
E, até que o novo modelo esteja ativo de forma integral, a contabilidade será determinante para proteger o caixa, ajustar margens e evitar distorções no preço final.

A palavra-chave do período será: precificação estratégica com suporte contábil especializado.

Se a empresa não se preparar, poderá vender sem perceber que está perdendo margem.
Se se preparar, atravessará a transição com segurança e possivelmente com vantagem competitiva.